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ONDE O BRASIL “TRUPICA”

O Brasil é um país que dá cinco passos à frente e uma contagem pouco inferior – quando não superior – a eles para trás, por causa de uns tropeções! 

Somos ótimos em algumas coisas, bons em outras, regulares em muitas outras e péssimos em um montão de coisas. 

É difícil acreditar em progresso quando algumas áreas são exemplos de excelência, vide nosso sistema eleitoral totalmente informatizado, enquanto em outras o abandono se faz notar visivelmente. 

Somos um suposto celeiro do mundo há centenas de anos! Mas, nessas mesmas centenas de anos pessoas ainda morrem de fome diante deste celeiro. Temos uma extensão de terras invejável, continental, e ainda se disputa um pedaço de solo para se viver... 

- Onde o Brasil “trupica”? 

Sempre me lembro de uma moda de viola, que muito cantei na infância: “uai, uai, quem trupica, também cai, trupiquei no pé da mãe, fui parar no pé do pai...”. 

O Brasil “trupica” em si mesmo. O Brasil tropica no jeito de ser brasileiro, um jeito “esperto”, mas desastrado com conseqüências perigosas para o próprio Brasil. 

O Brasil “trupica” em si mesmo, quando alguém dá uma aceleradinha para aproveitar o farol amarelo e não parar no vermelho; quando se estaciona em fila dupla, sem se preocupar com quem quer passar; quando se joga lixo pela janela dos veículos nas ruas e estradas; quando se elege políticos que no passado nada fizeram, mas estão com bom marketing; quando se tem um presidente que viaja tanto e compra seu próprio avião, enquanto empresas áreas do país quebram; quando se faz de um congresso uma churrascaria política; quando uma mãe tem ficar o dia todo na fila de uma escola para tentar uma senha para seu filho ingressar na educação; quando faltam remédios em hospitais; quando a corrupção se torna justificável; quando em nome de uma causa maior não se dá importância àquilo que é menor... 

O Brasil “trupica” em si mesmo, quando tudo acaba em pizza. Aliás, o termo “acabou em pizza”, tem origem no Palestra Itália, hoje Palmeiras, quando os Palestrinos discutiam entre si, numa acirrada disputa que parecia não ter fim – e como não conseguiram por fim à discussão – resolveram ir comer pizza, e um deles disse: “Que bom, nossa discussão acabou em pizza” e todos viveram felizes para sempre e, até hoje, uma boa pizza resolve tudo no Brasil ou, pelo menos, parece ser a solução mais ideal. 

O Brasil “trupica” em si mesmo, quando um estrategista político diz ao seu cliente: “Vamos enrolar até que um escândalo maior apareça, então o seu será esquecido”; quando vemos bandidos virando manchete e pessoas de bem virando reféns; quando acreditamos que tudo que é dito por meio de um comercial de TV é verdade; quando a lei se faz ineficaz diante de tanto desprezo ao ponto da impunidade levar todo o crédito; quando a propina é tão comum que a pessoa que não leva parece desonesta; quando pessoas de honra se afastam da política, pois se não se corromperem não encontram meios de permanecer na política; quando homens públicos prometem coisas que nunca pretendem realmente realizar; quando alguém de fé tem sua fé transformada em pedágio para o Céu... 

O Brasil “trupica” em si mesmo, desde sua descoberta, uma descoberta conturbada, na base do “toma lá, dá cá”. 

O Brasil “trupica” em si mesmo, quando não aprende com seu passado como povo, como nação e como Estado; quando compromete a confiança de um voto; quando compra um voto; quando faz este voto valer dentaduras, camisetas ou botijão de gás; quando se nivela a falta de ética por baixo, na base da teoria do “todos fazem eu vou fazer também”. 

O Brasil “trupica” em si mesmo, por ter um povo bom, de coração especial, com uma fé especial, que sempre acha que o amanhã vai ser melhor, um povo otimista, um povo cheio de alegria e que virou presa fácil dos algozes da colonização que sofremos todos os dias. Falo colonização pela globalização social, onde temos de engolir aquilo que produzem sem avaliar se realmente será bom para o povo, contanto que tire do povo aquilo que vá iludi-lo por tempo suficiente para os espertalhões levarem uma vantagem e tanto. 

O Brasil “trupica” na ingenuidade de uma nação simples que sempre está pronta a oferecer a outra face e se comove com facilidade. 

O Brasil “trupica” no seu próprio Berço Esplêndido, e faz com que o futuro seja sempre um enigma a ser decifrado pelas mãos do destino, deixando como está para ver como é que fica. 

Brasil, olha por anda, olha com quem anda! Brasil, observa os filhos que cria, observa como eles te tratam... Brasil faça seu destino com memória! Viva a história de hoje, construa a de amanhã com as lições da história de ontem... 

O Brasil precisa parar de “trupicar” em sua própria terra, em seu próprio povo heróico e naqueles que fazem deste país uma gaveta diária que lhes oferece oportunidade de encher seus próprios bolsos enquanto tantos outros ficam à deriva. 

“Deitado eternamente em Berço Esplêndido...”. 

Talvez!!! 

Acordado eternamente em Berço Esplêndido... 

Sim, com certeza!

Cesar Romão
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