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SANTA CRISE DE MISERICÓRDIA

      Por muito tempo assistimos nos telejornais o resultado das Bolsas de Valores: bolsa subiu 1 ponto - subiu 2 pontos...

      Por outro lado, enquanto ouvíamos as notícias de subida das bolsas, as mesmas não vinham seguidas de aumentos para trabalhadores ou aumento de vagas no mercado de trabalho. No entanto quando a bolsa cai no Japão e Hong Kong, milhares de brasileiros perdem o emprego...

      Crise fabricada, com certeza, e mais ainda até mesmo prevista pelos especialistas da área.

      Os tigres asiáticos foram tidos como o novo mundo no mercado de fabricação de produtos, assustando boa parte de muitos países, porém pouca gente sabe, que a maioria da produção destes tigres tem como rumo certo o maior mercado de consumo do planeta, EUA. Não acredito que os americanos estivessem gostando de ver estes tigres invadindo o mercado mundial, através de uma chance que dispunham, achando que poderiam vender tudo aos americanos e o excesso ao resto do mundo.

      Com a desculpa da globalização a economia americana fez da Ásia seu pátio fabril, deixou que ele se desenvolvesse e agora através de um cancelamento maciço de pedidos, deixou muitas empresas em dificuldades, as quais por sua vez tinham compromissos com bancos e ações no mercado. Quando uma empresa entra em crise por falta de pedidos suas ações caem e o banco passa a não receber. Corretoras quebram e bancos sofrem saques em massa e bum, burum, bubum - eis a crise aí gente!

      Os estoques passam a ser verdadeiras bombas prestes a explodir. Com a intensificação da crise um amontoado de automóveis pode estar agora no pátio da Coréia, milhões de frangos na China, toneladas de aço sendo corroídos pela ferrugem na Tailândia e outros.

      Na certeza de que o mercado interno absorveria seus produtos, a indústria asiática passou anos contratando e investindo loucamente para elevar a produção com baixo custo. Mas, com certeza, tanta produção tem visão de mercado mundial e não local. Hoje essas empresas terão de buscar meios para liquidar seus estoques, não se importando muito com o prejuízo. Há o caso de um dos maiores armazéns refrigerados de Xangai, onde estão encalhados mais de 9 mil toneladas de peitos, asas, fígados e moelas de frangos, congelados - literalmente amontoados. Sahavirya Steel Industries, a maior usina de aço da Tailândia, está sendo sepultada pelo seu próprio estoque que já cercou toda a fábrica e calcula-se um total 200 mil toneladas. A China tem hoje 3 trilhões de yuans (US$ 362 bilhões) em bens encalhados.

      No Brasil, a Volks anuncia demissões pela crise, outros acompanham e existem até aqueles que usam o evento para justificar seu não cumprimento de contas.

      A liderança da Volks vem sendo ameaçada há muito tempo, sua fábrica está ultrapassada há muito tempo e necessitando de mudanças, desde que sua unidade de Taubaté começou a produzir mais carros com menos custos e operários, superando em proporções volumosas a unidade de São Bernardo do Campo.

      Isto é fato antigo e reconhecido pelo mercado. Mas a mania de aproveitar-se de uma crise, como justificativa da própria incompetência de atuação no mercado, ainda faz parte da administração neste país.

      Quando os americanos enfrentaram a concorrência de carros japoneses, no início dos anos setenta, ao invés de demitir, usaram seus funcionários de fábrica para vender veículos de porta em porta.

      Este filme das indústrias automobilísticas já passou em outras épocas, afinal demitir com razões de crise é mais barato que por incapacidade de administração.

      Cobram o que querem por seus produtos, mudam a cor de um botão no carro, mudam o ano para o seguinte e aí está um carro 0 km, citando como exemplo o caso da Kombi.

      Até pouquíssimo tempo atrás tínhamos alguns dos carros mais desatualizados e caros do mundo, com equipamentos obsoletos que já estavam fora de moda em quase todo o mundo.

      Hoje, com mais de 14 fábricas instaladas no país a situação parece estar sendo invertida quanto à atualização, mas os preços...

      Enfim, os americanos mostraram ao mundo, em poucas linhas, quem manda no mercado.

      A nós, brasileiros, que ainda não conseguimos nem abastecer nosso mercado interno, cabe repensar as atitudes a serem tomadas em meio a uma crise fabricada, sem que nosso povo venha pagar um preço tão alto.

      E, que nossa dignidade e esperança no Brasil seja colocada em plano de esquecimento - a ponto de ouvirmos - que este país não valoriza quem realmente trabalha.

Cesar Romão
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