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O CAMINHO DE UMA CARREIRA

      Houve um tempo em que as pessoas entravam em uma organização analisando vários pontos. Um dos principais eram as vantagens oferecidas por estas organizações e, principalmente, o plano de carreira. Nesse tempo, as empresas apresentavam um plano de carreira aos seus colaboradores.

      Os tempos mudaram, e como mudaram...

      Hoje a pessoa que pretende fazer carreira na empresa já tem de possuir a carreira em suas mãos.

      Apenas estudar em colégios bons e também em boas faculdades, atualizar-se constantemente com cursos já não são mais diferenciais competitivos tão relevantes. Tornaram-se fatores comuns!

      As entrevistas de seleção estão cada vez mais rígidas pois, afinal de contas, agora o departamento de Recursos Humanos e Seleção sabe que pode avaliar por múltiplas áreas. Existem testes disponíveis para todas essas múltiplas avaliações: inteligência, aspectos emocionais, talentos, competências, capacidades de relacionamento, tendências para liderança, faces do capital intelectual, aptidões criativas e tantas outras múltiplas que aparecerem...sem falar nas dinâmicas, que chegam a expor o fígado de algumas pessoas...

      O que está acontecendo é que as pessoas, após uma entrevista, estão se submetendo a alguma terapia. Isso porque alguns interlocutores de hoje estão parecendo mais profissionais com tendências de pilotos kamikazes, mostrando que existem poucas pessoas capazes para ocuparem este cargo tão importante para a empresa e, assim, atender às tantas qualificações específicas e perfeitas criadas por uma genialidade organizacional que reina em alguns departamentos de RH.

      Numa época em que uma indicação valia um bom percentual de aceitação dentro do universo corporativo, onde ainda se chamava esse departamento de pessoal, fui submetido a uma entrevista tão longa (hoje é considerada como bate-papo de happy-hour) onde a última coisa que meu entrevistador disse foi:

      Caso o sr. tivesse uma única oportunidade de me perguntar algo, o que perguntaria?

      Eu fixei meus olhos nos dele e respondi:

      A que horas eu começo a trabalhar amanhã e onde é minha sala...

      Isso foi algo audacioso, naquela época, mas que garantiu minha vaga.

      Atualmente qualquer pergunta ou gracinha podem ser perigosas, afinal quando departamentos de RH's se tornam tão exigentes, perdem algumas características importantes de reconhecer as múltiplas funções do senso de humor, as múltiplas funções da sensibilidade e outras tantas múltiplas que mostram as pessoas como um ser humano com espírito e habilidades profissionais.

      Por mais digital, por mais mármore e granito que uma organização possa ter, as pessoas ainda são a graxa organizacional, que faz as engrenagens empresariais girarem e girarem porque, afinal de contas, pessoas são pessoas...

      Brincam dizendo que, em algumas organizações, exigem um profissional vindo da Lua e que contratam um que passeia nas estrelas.

      Exigir demais é contentar-se com um meio termo.

      Esta pressão de encontrar diamantes lapidados, enterrados numa mina profunda de mercado, tem feito com que muitas pessoas voltem ao dilema: não contratou porque não tem experiência ou não tem experiência por que ainda é jovem...

      A tendência de contratar sangue novo para renovar e dar velocidade na corrida de mercado, levou jovens inovadores e entusiasmados ao front: alguns criaram produtos e serviços ótimos, até geniais, o único problema é que não tinham a cara do mercado...é, e aí surge novamente, a cara do mercado...

      Lembro que antigamente um produto era lançado sem pesquisa de mercado e o consumidor aceitava, pois as opções eram mínimas.

      Hoje raramente um produto vai ao mercado sem pesquisa e geralmente estes produtos seguem as tendências do mercado, indicados pelas pesquisas...

      Essa prática de contratação do sangue novo fez com que o sangue velho - pessoas com mais de 40, aquelas que correm somente à sombra de um chicote sem precisar sentir seu estalo - temesse seu futuro dentro do universo empresarial e, por isso, grande parte tornou-se empreendedor e o mercado empresarial contratante perdeu grandes e excelentes profissionais. Hoje os ventos sopram a favor destes profissionais que, ao simples mostrar do chicote para o cavalo, faz com que este corra à sombra do chicote...

      O preço de uma carreira para muitos profissionais tem sido uma família cansada e com saudade daquela pessoa legal que vivia naquele lar antes de julgar seu trabalho como a prioridade de sua existência. O preço de uma carreira tem sido para outras pessoas a deficiência em sua saúde. O preço de uma carreira que lhe fez levar serviço para casa e que fez com que criasse seus filhos com a educação do "sai para lá, agora não posso, estou trabalhando"...

      Pergunte-se:

      Qual o preço de minha carreira?

      Quanto me anulo como ser humano, profissional ou pessoa?

      A pergunta correta hoje é:

      O quanto esta carreira vai me fazer crescer como pessoa, como profissional e me permitir conviver com aquilo que amo, sem anular meus princípios e valores?

      Uma pesquisa solicitada pela Amrop International, à Universidade de Harvard em um projeto coordenado pelos professores Robin Ely e Mccolmick envolvendo 30 países, relatou que o profissional do futuro deve ser voltado à gestão da empresa de forma ampla, integrada, contribuindo para as decisões com visão do negócio, acrescida do background de sua especialização.

      Este profissional, segundo esta pesquisa, ainda deve ter as características de um:

      Alpinista - onde seu projeto começa a partir de uma visão – planeja sua escalada com detalhes – tem sempre em mente o objetivo final, sem perder de vista os intermediários;

      Navegador – não perde o norte – avalia e define rotas alternativas – comunica com clareza sua posição;

      Viajante – interessa-se por estudar outras culturas, idiomas e histórias;

      Empreendedor – tem clara noção dos riscos – é intuitivo – persistente e perspicaz;

      Malabarista – tem a capacidade de trabalhar com diversas atividades simultâneas sem perder a noção da prioridade.

      Esta pesquisa talvez não teve tempo de avaliar outra característica: a dos Avatares da Nova Era que ressuscitam pessoas...

      o tentar atender às tantas exigências impostas pelo mercado, as pessoas estão sepultando seu melhor desempenho, sua melhor emoção e suas melhores aptidões.

      Ser você é o grande começo, transformar esforço em resultados positivos, implementar sua competência na direção nutritiva, oferecer ao mercado algo novo, atuar com o disponível até atingir o objetivo, fazer sempre mais do que lhe foi solicitado e priorizar a convergência de competências, ter a disposição de comer um sanduíche na calçada da empresa e preparar-se para uma videoconferência com feras nacionais e internacionais, humildade para aprender e depois continuar sendo humilde quando aprendeu e passar isso adiante...

      Eis aí os melhores passos para trilhar uma carreira nestes novos velhos tempos...

      Lembre-se que nem sempre o aprendizado está no final do caminho, mas durante o seu caminhar...

Cesar Romão
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