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O TAMANHO DE SEU PROBLEMA

       A convite de meus amigos Eliana e Lair Ribeiro, fiz parte de um seleto grupo de executivos que conheceriam um trabalho inédito do Curso Sintonia.

        Por ali não existiam cartões, nem cargos. Todos eram participantes apenas com sua mente, coração e espírito. Apenas e tão somente pessoas em busca de respostas.

        Num determinado momento do evento algumas pessoas foram ao microfone falar sobre suas principais dificuldades e seus problemas. Isso não era obrigatório: apenas aqueles que queriam falar iam ao microfone. Nada lá era contra a vontade das pessoas, pois cada um seguia apenas a sua vontade.

        Achei impressionante a maneira como as pessoas falavam dos seus problemas. No início havia aquela timidez, mas, depois, quando percebiam que estavam livres para falar e os outros estavam prontos para ouvir, algumas delas chegavam a interpretar sua narrativa problemática, dando uma ênfase enorme.

        Era um daqueles momentos mágicos, como alguns outros que cito em minhas obras. Afinal de contas, colocar pessoas frente-a-frente com elas mesmas não é uma missão fácil e para isso necessita-se de conhecimento médico e acadêmico, características que transbordam no Dr. Lair Ribeiro.

        Logo após o término da apresentação de um problema, a pessoa seguinte parecia ter entrado numa disputa, pois um problema parecia maior que outro e assim uns consolavam aos outros.

        Mas, quando todos por ali achavam que já tinham expostos seus problemas, como os maiores do mundo, um tímido rapaz, acuado num cantinho da sala, foi convidado a falar. Ele, de início não aceitou. Ficou mais tímido ainda. Porém, num desses momentos mágicos, resolveu dar seu depoimento, pois todos os outros já haviam exposto o seu enorme problema.

        Ficou em pé, olhou para todos os presentes e começou a falar:

        - Sabem amigos, estou aqui por causa de um problema, como cada um de vocês aqui presentes. Casei-me com a mulher que amava: a mais bela mulher de minha vida. Tivemos o mais lindo bebê que alguém poderia pedir a Deus, um bebê maravilhoso. Numa noite eu estava fora de casa, em viagem a trabalho, e minha mulher dormiu com o bebê em nossa cama... Eis que, assim, o destino marcou a minha vida numa simples noite de sono.

        Sem perceber, minha mulher dormiu, sufocando o bebê e, quando acordou, tinha ao seu lado nosso filho já sem vida, sufocado pelo seu corpo durante a noite.

        Os presentes estavam de olhos arregalados!

        E ele continuou:

        - Foi difícil gente, foi muito difícil para mim e para ela. Por dias e dias ela não pôde ficar sozinha. Culpava-se e queria tirar a sua própria vida. Dia após dia, hora após hora, seu único objetivo era cometer o suicídio e acabar com sua vida, pois não conseguia mais continuar com aquela culpa. Passaram-se meses e tudo parecia caminhar para uma conformidade de nossa parte. Novamente, por obrigações contratuais com meu trabalho, fiquei longe de cada por um dia e neste dia, justamente neste dia, minha mulher tira sua vida e recebo a notícia que ela havia cometido suicídio.

        Perdi minha mulher, perdi meu filho, não tinha mais por quê viver!

        Confesso que também tentei tirar minha vida e, não sei como, falhei. Continuei com este pensamento que me perseguia, dia a dia, momento a momento. É por isso que estou aqui hoje: quero decidir pela vida, quero tirar de mim esta vontade de morrer. Quero acabar com esta vontade de estar com eles onde quer que estejam. É por isso que estou aqui: quero viver, mas estou lutando para morrer...

        Um silêncio inundou a sala. Não havia ali uma pessoa presente que não tivesse lágrimas no rosto. E, mais ainda, uma timidez geral varreu o local, pois até então todos estavam disputando o tamanho de seu problema e, no íntimo de cada um, até gostando porque seu problema era maior que o dos outros. Mas, naquele momento, todos os piores problemas da sala unidos num só, ainda eram infinitamente pequenos diante do daquele jovem que decidiu lutar para viver, vencendo seu sentimento de morrer.

        As pessoas se abraçaram e perceberam que não tinham problemas. A partir daí uniram-se todas no auxílio e confraternização àquele jovem. Todas as pessoas se esqueceram de suas dificuldades e passaram a consolar o jovem.

        Pessoas em dificuldade agora estavam solidárias em torno de algo que na verdade as deixou envergonhadas por reclamaram de tão pouca adversidade em suas vidas. Algumas delas chegaram a sair da sala para telefonar para seus filhos, outras para sua esposa...

        Agora eu pergunto:

        - Qual o tamanho de seu problema?

Cesar Romão
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